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Rascunho do primeiro capítulo de meu novo livro. Preciso de opiniões.

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Rascunho do primeiro capítulo de meu novo livro. Preciso de opiniões.

Mensagem por Liev Pyta em Qui Jul 26, 2012 10:44 pm

Rascunhei o primeiro capítulo do meu novo livro e, apesar de precisar acrescentar mais detalhes e dar uma polida em alguns elementos (preciso fazer um pesquisa densa sobre os temas abordados) o essencial da estrutura narrativa será nesse estilo. Gostaria que quem pudesse dar uma lida, opinasse o que achou, desse sugestões e , principalmente, comentasse se o projeto é viável ou não de ser publicado (se haveria público).
Spoiler:
12.

Lá fora, as águas de março, castigavam a população de São Paulo com tempestades torrenciais que atrapalhavam a rotina de quem circulava pelas ruas em direção ao trabalho. Quem decidia permanecer em casa também era incomodado por conta do elevado índice de umidade no ar que prejudicava a respiração de quem tinha algum tipo de problema respiratório. Mofo surgindo de todos os lados. Roupas que não dispunham de sol para se secar, ficavam com um cheiro apodrecido. Antenas de TV perdiam a sincronização e apresentavam imagens com chuviscos. Raios derrubavam árvores e redes de energia. Telefones quase sempre mudos. Um padrão ritmado de pingos caindo sobre as latas acumulava água que serviria como criadouro para mosquitos ou como mictórios para ratos urinarem leptospirose. Carros eram arrastados pelas enxurradas que não conseguiam descer pelos bueiros entupidos. Deus quando mandou o Dilúvio sobre São Paulo, parece ter selecionado para a arca somente casais de animais das piores espécies. Se São Paulo é a terra da garoa, é o lugar da desgraça sobre a Terra!

Estava deitada sobre a mesa de pinos riscada – por cima dos últimos e abertos exemplares da Folha de São Paulo – enquanto “filmava” Val preguiçosamente arrastar-se, como uma velha enceradeira enferrujada, até sua geladeira Brastemp suja por um bolor amarelado, vazia de mantimentos, mas cheia de gelo-aguado envolvendo o compartimento do freezer que matinha um pote de sorvete vazio. Pegou uma forminha de gelo que por sorte continha três pedrinhas. Uma mistura de gelo com uísque – cuja garrafa estava sobre uma pia cheia de louça suja – rodopiava no copo quadrado de fundo fosco – como água e urina quando se puxa a descarga – enquanto aproximava-o de seus lábios secos e rachados sedentos por aquela combinação que deixou – ao longo de muitos anos – seus dentes amarelados, sua face magrela com olheiras, a barba por fazer, um cheiro forte de mijo seco nas calças e, principalmente, seu comportamento alterado.

Aquele homem – de passado heróico e honrado – que sempre tivera carinho e estima por mim, estava agora tão molambento que nem mais se atentava ao fato que eu estava carente de atenção e de cuidados, precisando ser punhetada, para que tudo fosse como outrora. Não que antes desse momento descrito ele já não tivesse gosto pela bebida e andasse meio preguiçoso, mas desde que perdera aquilo que ele mais gostava – seu trabalho na ROTA – ele se tornara cada vez mais deprimido e sem estímulos para me adorar. Como para mim ele é a coisa mais importante, eu, por tabela, compartilhava do mesmo sentimento de tristeza e desanimo de ter ficado largada, tanto tempo, em cima de uma mesa de pernas frouxas (culpa dos cupins), enquanto sons de buzinas se misturavam à sinfonia de pingos grossos sobre o telhado de zinco de algum galpão vizinho. Também havia um estrondo por conta de um grande volume de água arrastada por um caminhão cujo escapamento soltava muita fumaça cheirando a diesel. A TV chuviscando tinha um ruído de interferência, mas servia para diminuir um pouco sua tristeza quando, em algum telejornal policial, algum vagabundo havia sido capturado ou morto. Quando num desses programas jornalistas, aparecia algum padre ou assistente social que lamentava o excesso de violência da polícia ele sempre reclamava em voz alta:
– Os direitos humanos só protegem os bandidos!

Mas esse cubículo escuro – cheirando a mofo, a restos de alimento e a ferrugem por conta dos objetos metálicos espalhados pelo quintal cujo mato crescia irregularmente – só me era suportável por conta de tudo o que eu sentia por ele. Observava um sujeito apático – muito distante de seu antigo semblante confiante e seu destacado porte físico – cujo único estimulo era planejar como conseguir sua próxima vítima.

Bons tempos em que saíamos até a varanda e escutávamos Iron Maiden, Led Zeppelin e outras bandas de heavy metal enquanto ele ficava deitado em uma rede cearense se balançando lentamente e eu ficava apoiada em seu colo. Nesses momentos ele compartilhava comigo as histórias de suas batidas, revelando a maneira com que fazia justiça com as próprias mãos apagando muitos vagabundos que sujavam as ruas da nossa digníssima cidade. Tudo funcionava perfeitamente nesse tempo. São Paulo era mais ensolarada e tinha menos problemas, mas ainda existiam vagabundos em número suficiente para nos trazer diversão. Nossa casa cheirava a tinta fresca, o quintal tinha uma bela grama sempre aparada com um belo e imponente rottweiler negro – com mais de 40 kgs – chamado Bruce guardando a entrada.

Nessa época ele preferia cerveja Antártica – bebida essa que parece indicar uma rotina mais saudável e sociável que o malfadado e fedorento uísque – e ao invés da sua mais atual refeição – uma lata de sardinha Gomes da Costa que virava uma papa quando a esmagava no próprio líquido conservante e misturava-a ao pão tornando seus dedos engordurados, sujando suas camisas e tornando-as amarronzadas numa mistura de peixe com conserva –, ele recorrentemente costumava chamar seus amigos, seus parceiros de batalhão, para churrascos com bastante costela, lingüiça, coraçãozinho e as suas preferidas: coxinhas de frango. Essas eram sapecadas numa brasa bem baixa e só estavam assadas lá pelo final do churrasco, quando os apressados já estavam estufados de tanto que comeram carne mal passada e que a grande maioria do que sobrava se encontrava bem passada porque ninguém agüentava comer mais nada, nem tinham mais paciência para cuidar da churrasqueira.

Entre os convidados sempre estavam presentes o Tenente Coronel Mendes, um sujeito alto com uma expressão fria – como um escandinavo – combinada perfeitamente com sua posição de mando no grupo; o Cabo Rodrigo com sua inteligência limitada, mas provido de vigor físico que superava qualquer um dos seus colegas de batalhão; o Capitão Carvalho com sua voz de trovão que conseguia arrancar de seus comandados o seu melhor; e soldados “aspiras” como “Chulapa” – por conta da semelhança física com o jogador de futebol – e “Mauricio Matar” – que apesar de não parecer com o ator, era um apelido apropriado para o “galãzinho” do grupo. Sempre presentes, igualmente sempre elogiavam minha beleza deixando Val envaidecido.

– Como faz para que sempre esteja tão bonita? – perguntavam com freqüência a cada visita.
– O segredo é que, ao contrário de muitos, sempre trato Charlene com carinho e cuido muito bem dela – era a resposta de Val enquanto me acariciava e eu toda tímida pelo elogio me silenciava.
– Góes, mas ela é tinhosa e explosiva, tem que ser doido pra dar carinho nesses casos – brincava Mendes enquanto erguia seus óculos escuros revelando seus lindos e frios olhos azuis.
– Comu que é? Por ser explosiva que entre muitas que tive, ela é minha predileta – dizia Val enquanto me filmava e eu revidava o olhar apaixonado de admiração e cumplicidade.

Bons tempos que não voltam mais. Maldita sociedade hipócrita que condenou meu querido Val por conta de um único erro. Tantos anos de bons serviços prestados, de uma ficha impecável, de inúmeros vagabundos mandados pra vala-comum sem que os parentes pudessem fazer um velório digno com o caixão aberto. Mas nessa época sua dignidade que – por causa dessa mesma sociedade a que defendia – fora mandada pra vala sem direito a velório. Eu tinha orgulho de andar ao seu lado quando vestia seu uniforme acinzentado com o símbolo da polícia militar sobre o peito e a bandeira do estado de São Paulo sobre os ombros. Mas agora todo o seu fardamento estava amarrotado em um canto qualquer do seu guarda-roupa – de madeira prensada cuja estrutura estava toda furada por conta de cupins – por culpa daquele juiz desgraçado, o inesquecível (no mau sentido) glutão Amilcar Paes de Barros. Só porque num trabalho de rotina – uma perseguição a um grupo de marginais que haviam roubado objetos de uma loja de conveniência num posto Petrobras – Val e seus parceiros, no flagra apagaram alguns playboyzinhos – maconheiros de condomínio criados a base de Quick de morango, ao invés de leite com groselha – que estavam no lugar errado, na hora errada e fazendo a coisa errada, eles foram expulsos da corporação e perseguidos pela mídia.

Tudo culpa da imprensa que fez drama demais pra uma operação de rotina que aplicou a lei conveniente pra vagabundo que se julgava digno de privilégios e tratamentos diferenciados somente porque estudavam numa porcaria de universidade católica. Ricardo, 21 anos, branco de cabelos castanho claro, estudante de direito pela PUC, filho de um renomado desembargador, assassinado – segundo a acusação – injustamente numa batida, quando ele e seus colegas mostraram sinais de reação – uma lanterna apontada para o policial, ironicamente um dos objetos saqueados que um dos rapazes tirou do bolso para devolver aos policiais. Bruno Menezes de Albuquerque, branco, cabelos negros, ex-seminarista que estudava filosofia e queria ser professor, dois disparos de fuzil, um no pescoço e outro na cabeça: morte instantânea. Igor Nassif, moreno de cabelo rastafári, sobrinho de um famoso apresentador de uma grande rede de TV, morto com diversos disparos. Era algo do gênero que os jornais do dia noticiavam e que passado o dia, ficaram noticiando por meses.

Processo acompanhado de perto pela mídia cercada de “especialistas” – um bando de fanfarrões – para informar ao povo como os policiais maldosos da ROTA deveriam ser punidos. Desembargador amigo do pai da vítima ficaria responsável pela acusação. O mesmo governo que transformara a ROTA numa máquina de matar e que a usava como slogan para reeleger seus políticos com o lema “A ROTA na rua”, queria que os sujeitos se passassem por exceções que não respeitaram os procedimentos e por isso cometeram abusos não aprovados pela instituição. Uma decisão tomada por júri popular condenou três dos policiais da operação à prisão, Val como não teve participação direta comprovada – passei semanas na pericia que tentara arrancar de mim algum indício de sua participação efetiva nos disparos – foi somente afastado de suas funções, o que em seu caso representava algo pior que a prisão.

Val foi afastado de suas funções e por isso acabou indo trabalhar na loja de discos – na Galeria do Rock – do seu irmão mais velho. Esse, não tardou muito a morrer por conta de um trágico acidente de moto e por isso deixou-a a Val como seu único herdeiro. Não bastasse seu ofício arrancado agora tinha que viver da venda de discos de grupos como Racionais, Pavilhão9, Styllo Selvagem, dentre outros, destinados para o mesmo tipo de vagabundo marginal que eu o ajudava a pipocar. Bons tempos do barulho das sirenes piscando tons em vermelho e azul enquanto anunciavam nossa chegada. O motor da veraneio ligado misturado a diversos tipos de heavy metal, gravados numa fita cassete, estimulavam nossos heróis a punir sujeitos inescrupulosos que queriam se dar bem na vida extorquindo e ameaçando trabalhadores e cidadãos de bem.

Suas intenções eram as melhores possíveis, mas, não nego que para fazer parte da ROTA você tem que possuir um instinto assassino ou na melhor das hipóteses deve forjar um se modelando naquilo que a realidade das ruas exige de você. Val sempre teve gosto pela “limpeza” que fazia nas ruas, principalmente porque, no meio das perseguições e trocas de tiros com bandidos assustados diante do esquadrão da morte, nada melhor para finalizar a sessão que um tiro meu que bem-dado, esmagando a face de qualquer vagabundo, tiro esse que ele era o sujeito que conduzia. Cócegas leves – de seu indicador que por estar doutrinado, não tremia nem tinha espasmos antes do momento oportuno em que dava o “golpe” – em meu gatilho e aquela sensação de calor a partir do momento em que a pólvora ativava o chumbo a percorrer o meu cilindro numa explosão que resultava em inúmeros fragmentos que se espalhavam sobre o alvo delimitado: a melhor sensação que poderia sentir! Ele não me decepcionava, mirava com precisão, escolhia a face do vagabundo a esmagar, dava o “golpe” me punhetando da maneira certa, apertava o gatinho enquanto a cápsula pulava para fora, o chumbo se espalhava e um novo “golpe” preparava uma nova seqüência de tiros.

Isso antes, nos bons tempos de ROTA. Agora, mesmo ainda carregando esses instintos e me tendo como companheira inseparável ao seu lado, Val não dispunha mais das ferramentas legais para agir da maneira que a sociedade precisava. Sua natureza exigia que continuasse matando bandidos para limpar as ruas dos ratos, mas não poderia atuar ao lado da lei, mesmo fazendo a coisa certa pela qual a maquina estatal o havia treinado, porque ela mesma não tinha coragem de fazer, nem assumir esse tipo de trabalho sujo.
Sua nova estratégia para desestressar era atuar à paisana, freqüentando a região da Cracolândia – num horário em que nenhuma alma viva fosse testemunha – raptando algum viciado largado no chão, enquanto dirigia sua Caravan – com o sujeito inconsciente enrolado em algumas cobertas velhas – até nossa casa. Estacionava a perua vagarosamente dentro do terreno cercado por muros altos e portões fechados, retirava o marginal apagado, bem amarrado, com o mesmo silver tape que antes usava para amarrá-lo, cerrando sua boca. Arrastava esses marginais até um quartinho – seguindo por uma entrada lateral no lado externo da casa – a que nunca pude entrar, nem saberia dizer, apesar de desconfiar, o que acontecia lá dentro. Depois de fazer com os bandidos amarrados o que queria, mas que desconheço exatamente como era, ao som de um rock pesado, ele saia carregando o cadáver em um saco pronto para partir com ele e se livrar de qualquer vínculo entre ele e a vítima. Ele sabia inúmeras maneiras de desovar o presunto, preferencialmente optava pelas beiras de estradas sem movimentos ou mesmo numa mata isolada. Quando estava com bom humor jogava no Tietê afinal – como pensava em voz alta – lá seria o lugar apropriado para lixo.

Como ele só apagava vagabundo indigente, a polícia sempre associava o crime como praticado por vingança ou como represália de algum traficante por conta de algum tipo de dívida de drogas. Apesar de apagar vagabundos que passavam a noite ao relento pelas ruas sujas do centro velho, Val não gostava de chacinas que chamavam muita atenção e precisava envolver um grupo razoável de pessoas como o caso da “Chacina da Candelária” no Rio de Janeiro. Dizia com freqüência e publicamente – obviamente que não sobre seus crimes, mas sim em comentários sobre a “Chacina da Candelária” – que isso era coisa de carioca vagabundo. Privadamente ia além, comentava em voz alta que era “coisa de carioca vagabundo que fazia um serviço porco pra ter tempo de ir curtir na praia transformando um esforço diário e gradativo num espetáculo televisivo, enquanto a polícia de lá não fazia frente aos bandidos. Sim, ele tinha o perfil do operário paulistano introspectivo que se dedica com o máximo de esforço possível naquele trabalho de formiguinha que só apresenta resultados a longo prazo e que atua somente como mais uma engrenagem de um máquina que depende de todo um conjunto maior de atuações para que funcione em sua plenitude. Sabia que em São Paulo o processo de limpeza teria que ser lento e gradativo, porque aqui, como a bandidagem não era mais poderosa que a polícia, a população e a imprensa não aturaria excessos.

Por conta dessa nova estratégia, de agir à paisana, seus métodos de extermínio haviam mudado. Agora ele utilizava alguns tipos de arma branca, pois caso me utiliza-se vestígios seriam deixados e maiores problemas poderiam surgir por conta de muita sujeira – como carne moída e vísceras despedaças – que o impacto dos meus tiros certamente provocariam. Sim, por isso que desde essa época eu me encontro abandonada, largada como um objeto que o fazia lembrar um tempo que não voltaria mais. Largada nessa mesa, só usada quando queria eliminar algum pombo que o incomodava no quintal ou quando queria treinar tiros destruindo garrafas de vidro e latinhas de cerveja empilhadas sobre barris de latão. Sua rotina derrotista, sua atuação à paisana, sua doença mental: tudo me transformava num objeto sem propósito. A última vez que me recordo de um olhar de admiração e vontade de ser usada foi quando uma das vítimas arrastadas, se debatendo com uma vontade insana de sobreviver, moveu levemente o capuz e por uma pequena fresta, admirou-me como que se estivesse torcendo para que no último instante conseguisse se soltar e me utilizar para pipocar a cara de seu carrasco. Confesso que mesmo Val sendo o homem a que mais amo, tal qual ele necessitou agir instintivamente contra indigentes, meu instinto preferiria que eu tivesse sido utilizada para tirar sua vida, do que ser mantida encostada sem qualquer propósito de existência.

Seus pequenos delitos jamais geravam desconfiança seja em relação à polícia, seja em relação a seus conhecidos, amigos ou inimigos. Tudo funcionava bem, até que, quando a idade foi chegando, Val foi se tornando cada vez mais preguiçoso e ao invés de ir até a Cracolândia – tendo despesas com gasolina, numa época, que, segundo ele, a loja estava com o movimento cada vez pior – ele preferiu atrair os vagabundos rappers que compravam discos em sua loja. Só não se dava conta de que após a coincidência de dois corpos serem encontrados com fita cassete e disco do mesmo gênero musical, que a imprensa e a polícia pensariam na possibilidade de se tratar de um assassino em série. Serial killer – como nos seriados de TV – foi uma idéia que ele gostou e adotou – porque afastaria suspeitas – tentando empregar algum padrão que disfarçaria seus verdadeiros propósitos.

No inicio isso lhe serviu para agir com segurança, manipulando as provas de seu crime, mas com o tempo, foi se aproveitando da mídia que sua loja tinha para reclamar da sociedade e conseguir seus momentos de fama ameaçando o suposto assassino em série:
– Se esse vagabundo chegar na minha loja, tem que vir com disposição senão eu mando bala – costumava dizer enquanto câmeras de diferentes redes de televisão disputavam o melhor ângulo e o melhor áudio.
Certo dia, acho que lá pelo terceiro assassinato, chegou a me mostrar para as câmeras e soltou o seguinte recado para o serial killer inexistente:
– Se você voltar a incomodar algum dos meus fregueses, vai ter que prestar contas com a dona Charlene.
– Charlene é o nome de sua arma? – perguntou um repórter cujo nome eu não me recordo, que era correspondente do programa Aqui e Agora, mas que não era o famoso Gil Gomes.
– Sim, isso é coisa do batalhão. No nosso treinamento, os comandantes já costumam brincar para cada um adotar uma arma e dar-lhe um nome de mulher – explicou satisfeito por lembrar-se daquilo que mais gostava. – Com a Charlene aqui, nunca dei chances para nenhum meliante mal-intencionado – continuou tentando refazer-se herói de uma história em que ele próprio era o criminoso.
Tive sim meus momentos de fama, mas preferia o anonimato de outrora. Preferia Val atuando ao lado da lei, me usando para aquilo que fui criada: matar vagabundos! Nunca tive jeito para estrela de TV, apesar de estar entre as preferidas em séries policiais para concluir uma cena de maneira impactante, sem que o inimigo tivesse qualquer chance de reviver. Também gostavam de me endeusar em filmes que um grupo precisava estourar os miolos de mortos-vivos, mas não me conformava com esse tipo de valorização ficcional quando a ameaça real nos esperava lá fora!

Val agora agia feito um desses vagabundos a que eliminava. Perdera sua dignidade, o respeito pela farda a que jurara lealdade, perdera seu respeito por mim, assim como eu perdia pelo que ele foi um dia. Sua trajetória nesse tipo de delito durou alguns bons anos, mas ele não contava que me abandonando, eu só esperava o momento certo para que precisasse de mim, para dar o troco. Sim, no momento em que precisou desesperadamente de minha atuação para não ser incriminado, eu simplesmente “travei” e por conta disso ele foi pego com a boca na botija. Mendes, que atualmente deve estar terminando de cumprir sua pena, tinha razão: eu era tinhosa!
Não sei necessariamente porque me lembrei desse dia de chuva para descrever Val. Nesse dia ele só ficou perambulando pela casa. Não foi o dia do primeiro assassinato que o fez notável, nem um dia em que nada de especial aconteceu. Um dia triste, talvez, que servisse como prenúncio do que viria acontecer. Talvez um psicólogo pudesse explicar melhor meu estado de espírito.


***

Mas, passada essa descrição de nosso herói – ambientada num dia monótono que combinava com seu atual perfil – agora cabe aqui comentar como Val se tornou o serial killer que a imprensa apelidou como “O Açougueiro da Galeria do Rock”. Não que suas vítimas fossem desmembradas com a perícia de um profissional do corte, mas como, inicialmente, ele por um acaso, numa insanidade total resultado da falta de planejamento, fez picadinho delas – não sei exatamente porque, mas acredito que seja uma mostra de um estágio de agravamento mental – tornando essa alcunha apropriada para a imprensa. Ele nunca gostara da imprensa, mas inexplicavelmente passou a agir da maneira que essa pintava sua figura – um monstro carniceiro. Como ele gostou desse apelido e da relação de crimes que aconteceu por uma coincidência, nas próximas vítimas ele forjaria algumas pistas, como a tentativa de simular o mesmo tipo de corte usado no frango a passarinho e até teve a criativa, porém sádica idéia, de substituir as tripas de uma das vítimas por lingüiça de porco, enquanto se desfazia dos miúdos verdadeiros no seu forno externo.

Como não fui testemunha ocular do acontecimento – afinal estava em casa – a cena que descreverei é uma reprodução que um dos objetos, que estava presente no dia, mas que faz questão de manter o anonimato, me contou:
Era um dia de movimento fraco por conta de um feriado emendado, com a maioria das lojas, inclusive estando de portas fechadas. Após as quatro da tarde, não se via na rua uma alma viva. Um cliente havia encomendado uma fita cassete qualquer, mas só poderia pegá-la após o horário do expediente. A testemunha, quando me contou sobre o acontecimento não se lembrava dos detalhes exatos, mas o caso era que o cliente não poderia passar lá durante o horário de funcionamento e como a galeria tem um horário para fechar, Val – que precisava desesperadamente de dinheiro – combinou de encontrá-lo num local próximo a galeria. Essa testemunha, que no dia foi esquecida na loja, não pôde acompanhar todo o processo, mas juntando relatos, eu imagino que dê para reconstituir com certa fidelidade o que de fato aconteceu naquele dia.

Val havia fechado a loja. Ele caminhou lentamente até uma rua paralela da Rua 24 de Maio para algum ponto que tinha combinado de encontrar o sujeito. Jeferson de Souza ou – como gostava de ser chamado – “Jefinho” era um cliente antigo que consumia todo tipo de produto relacionado à cultura hip hop. “Jefinho” tinha um rosto pardo achatado de queixo bicudo com a barba por fazer. Vestia uma blusa negra de moletom com zíper, seu cabelo raspado estava escondido sobre um gorro – que quase sempre estava coberto por um boné do Chicago Bulls, mas nesse dia, estava somente com o gorro que sozinho não conseguia esconder seu achatado nariz. A julgar pelo esquecimento do boné ausente de sua cabeça, ele tinha pressa. Lembrando-me agora o que ele queria (desculpem pelas minhas falhas de memória que erroneamente acusei como esquecimento da testemunha), nesse dia, especificamente, ele queria uma fita cassete editada – que era difícil de ser conseguida no mercado – que continha músicas do grupo Styllo Selvagem. Mesmo sendo uma fita cujas músicas eram tocadas com freqüência nas rádios, segundo ele, precisava levar urgentemente pro irmão na cadeia “lembrar das paradas do tempo que tava fora”. Val parecia não ter entendido direito os motivos que faziam daquele objeto de grande importância, mas o que importava é que ele pagaria pela cópia falsificada um bom valor, afinal mesmo as cópias das cópias eram raras.

Mas apesar de concordar com o encontro, Val já estava puto da vida por ter que se sujeitar a ficar até altas horas num emprego que ele não gostava pra conseguir uma mixaria que não proporcionava uma vida de prazeres. Precisava daquela venda porque estava sem grana nenhuma, mas aquela mudança de planos fez com que nesse dia, ele não pudesse ir atrás de uma das suas vítimas indigentes na região da Cracolândia. Mas, apesar dessa impossibilidade, seu desejo ancestral concentrava-se e a vontade de matar não cessava. Não conseguia ver diferença entre seu cliente e o tipo que ele matava. “Esse filha da puta tá é roubando dos outros para sustentar o irmão na cadeia” – era o que ele pensava enquanto separava a fita e a colocava no bolso da calça.

Fizeram o negócio rápido, porque tudo já havia sido definido pelo telefone. “Jefinho” pagou, pegou a fita cassete, colocou-a no bolso, ambos saíram da frente da loja – o local combinado – e seguiram na mesma direção pela rua sem qualquer movimento. Val estava sem carro, por isso seguia em direção à estação República do metrô e com ele “Jefinho” seguiu conversando sobre alguma coisa que não sei, mas conhecendo bem Val, certamente seu vocabulário de bandido da periferia foi o irritando, até que passando por algum beco escuro e sem uma alma viva por perto, ele perdeu a paciência de uma vez – talvez por conta de uma provocação, discussão, ou seja, qualquer outro motivo que quem não presenciou a coisa não pode saber – derrubou a vítima, golpeando-a com uma faca – que carregava pra se proteger de vagabundos – deixando o corpo falecido naquele local isolado. Não sei exatamente como, mas ele insanamente começou a desmembrar o corpo da vítima, até que nessa loucura toda, ele se deu conta de que não estava com carro, por isso teria de deixar largado o corpo de sua vítima por lá mesmo. Despedaçá-lo havia sido uma atitude insana porque só espalharia o sangue, sujando inclusive o assassino. Ele não poderia tirar proveito desse estado, pelo contrário só poderia se prejudicar caso alguém o notasse encharcado de sangue andando pelas ruas naquela altura da noite.

Tudo isso aconteceu de maneira muito confusa e apressada, porque foi uma ação improvisada que não estava planejada. Val, procurando as veredas mais escuras para disfarçar suas roupas e membros ensopados de sangue, voltou o mais depressa possível para casa, se desfez da roupa, da faca, e tomou um banho demorado – em sua banheira de água quente, limpando suas unhas, repletas de sangue grudado, com uma escovinha – enquanto todas as provas queimavam num forno construído especialmente para fazer com que os vestígios criminais sumissem. Todas as provas haviam sido eliminadas, menos uma que ele havia esquecido: a fita cassete em um dos bolsos no corpo desmembrado da vítima.

Será que poderia ser prejudicado por conta disso? Pensava nisso, mas logo deixou de preocupar-se porque não havia registro onde o sujeito a havia conseguido e mesmo se descobrissem que havia sido ele que tinha vendido uma de suas fitas, não poderiam ligá-lo ao crime porque vendeu algo a um de seus clientes antigos. Até seria ilógico desconfiar de alguém ter assassinado um cliente que sempre freqüentava sua loja e não tinha qualquer dívida ou desacordo que pudesse ser testemunhado por outras pessoas que conheciam a relação entre os dois envolvidos.

Acamou-se, após tomar um calmante, e foi dormir na sua grande cama de casal – cujas cobertas estavam desarrumadas – sempre vazia de uma companheira, mas que era o local de onde surgiam suas idéias mórbidas: suas atuais companheiras de cama. No dia seguinte ficou sabendo pelo noticiário que um sujeito assassinado brutalmente havia sido encontrado e que estavam procurando informações sobre quaisquer tipos de relação com o crime, pois, por enquanto, a única pista encontrada tinha sido uma fita cassete em posse da vítima. Nisso começaram a pipocar especulações da causa do assassinato e discussões de como o rap poderia estimular atitudes violentes através de suas mensagens contra-sociais. Mas, após a identificação do cadáver, tanto a imprensa, quanto a polícia imaginavam que talvez tivesse relação com rixa de gangues ou que poderia ser alguma reação do PCC, um ato de vingança por conta de uma denúncia de seu irmão preso que havia ferrado com alguns “cabeças” da organização.

Especulação essa que durou apenas uma semana, quando Val atuou novamente, de modo que tanto a polícia, quanto a imprensa começassem a elaborar teorias de que se tratava de um assassino em série.
Sobre essa segunda morte, não conheço tão bem os detalhes, portanto, é melhor ceder o espaço para que uma testemunha ocular explique detalhadamente o ocorrido. Curioso como me atrapalhei toda para comentar sobre Val, mas não sobre seu crime. Talvez porque eu esteja acostumada com crimes violentos ou talvez porque não esteja acostumada com a insanidade do meu herói. Prefiro agora me recordar dos bons momentos que passamos juntos e dar um ponto final nesse relato.

Liev Pyta
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